O calendário de lutas e a agenda da frente ampla

*Por Luã Reis:

Os últimos atos “Fora Bolsonaro!” foram deliberadamente sabotados pelas organizações de esquerda frente-amplistas. Com a justificativa de focar no dia 7 de setembro, praticamente ninguém convocou às ruas nos atos de 11 e 18 de agosto. Com a exceção da CUT para o ato do dia 18, por conta de ser puxado pelos servidores contra a “reforma administrativa”. Muita gente politicamente informado, e até organizada, sequer soube dessas manifestações em agosto.

Os atos em maio e junho foram grandes, nacionais e combativos. Após o ato do dia 19 de junho, sem explicação aparente, o comitê organizador dos atos marcou o ato seguinte para o dia 24 de julho, mais de um mês entre as manifestações. As bases dos partidos e organizações de esquerda, os manifestantes independentes, ficaram chocados, se revoltando contra o calendário absurdo.

Pressionados, os organizadores anteciparam as ações para a outra semana. Se mais de um mês seria desmobilizador, apenas duas semanas depois dificultou a logística. O motivo do açodamento já era um indicativo de uma manobra em curso: uma “descoberta” em um depoimento da CPI que ninguém se lembra mais.

No dia 4 de julho, as coisas começaram a se desanuviar. Os tucanos colocaram o bico na manifestação, sendo devidamente coibidos pelo PCO. Os petistas apoiaram a ação. A esquerda frenteamplista se revoltou contra a “violência”, se solidarizando com os partidários do Bolsodória.

O salutar efeito da ação foi resumido pelo MBL: “ficou claro que não podemos participar de protestos com a esquerda.” Assim, a direita “não-bolsonarista” marcou atos para o dia 12/09, não indo aos atos, ainda expressivos, do dia 24 de julho.

Surgiu então o empasse do calendário: partidos de esquerda queriam o dia 11, dia do estudante; sindicatos faziam questão já mencionada do 18. A esquerda frenteamplista emplacou o dia 7 de setembro. Novamente a distância das datas usada como fator desmobilizador.

Pela dinâmica própria do movimento dele, Bolsonaro convocou os apoiadores para o ato também no dia da independência, focando em Brasília e na capital paulista.

Eis que Bolsodória, defendidos pelos frenteamplistas como o farol da civilização, proíbe os atos da esquerda no dia 7, declarando que as ruas de São Paulo serão propriedade dos bolsonaristas naquele feriado. Para os amigos-funcionários do Roda-Viva, o tucano iluminista declarou: “quem quiser protestar contra o governo vá as ruas no dia 12”. Ou seja, a esquerda deve ficar à reboque da direita. Para se protestar contra Bolsonaro deve se ouvir o MBL pedir a prisão do Lula, o fim dos sindicatos, a extinção dos direitos trabalhistas e a ilegalidade dos partidos comunistas.

Sentindo o drama da situação, PT, CUT, PSOL e os outros partidos de esquerda correram para apenas nessa semana mobilizar para os atos do dia 7. Um atraso que promete cobrar um preço terrível. Pois, é real a possibilidade de grandes atos bolsonaristas em São Paulo e em Brasília, contrastando com atos minguados da esquerda. Há chance ainda de até os atos da direita não-bolsonarista no dia 12/09 serem maiores do que os da esquerda.

Dando nome aos bois do Dória: PDT, PSB, boa parte do PC do B, a Força Sindical, a UGT, a CSB e a Nova Central estão abertamente sabotando os atos do dia 7. Não só, muitos já declararam que participarão dos atos do dia 12 com a direita, como o cirista Tico Santa Cruz. As mídias partidárias do frenteamplista, como o The Intercept e o Medo e Delírio em Brasília fazem coro a esse chamado. O Medo chama a esquerda a ficar em casa, alerta que dia 7 será mais um passo em direção a uma tentativa de golpe, mas o STF, na figuras de Tóffoli e Alexandre de Moraes, deterá os planos autoritários de Bolsonaro. Continuando no Delírio, chegam a contar com os latifundiários para barrar o impulso de Bolsonaro.

Como é possível que se acredite na iminência de um golpe fascista, mas ao mesmo tempo se peça para a esquerda ficar em casa e se submeter a direita? Simplesmente não acreditam nesse golpe. A frente ampla sabotam os atos para que a esquerda e os trabalhadores não obtenha ganham políticos com as manifestação.

Que esses setores não demonstrem uma força que os obrigue a retornar de onde vieram, os braços de Bolsonaro. Que a esquerda tome às ruas no dia 7 independente da Frente Ampla. Ainda há tempo para as lutas, só não podemos perder mais tempo com os sabotadores.

*Luã Reis é professor de história e militante do Núcleo Saravá Cultural. (Imagem:Edson Rimonatto/CUT)

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