Letícia Florêncio: racismo ambiental e as grandes tragédias no Brasil

Em ano de eleições, se faz necessário participação ativa, analisar bem as candidaturas e seus projetos políticos, elegermos representantes comprometidos com a implementação de obras de contenção e canalização, projetos de educação, saneamento, moradia, urbanização e de combate às desigualdades sociais e ao racismo ambiental.

Por Letícia Florêncio:

Não é de hoje que o povo trabalhador tem sofrido com as grandes tragédias, onde a mais recente aconteceu com a população de Petrópolis, após forte temporal, resultado de uma combinação de fatores climáticos, entre eles o fenômeno climático conhecido como zona de convergência do Atlântico Sul, que é o encontro entre massas de ar frio e quente, que costuma gerar formação de nuvens densas e chuvas intensas de longa duração que nesse caso foi mais intenso que o esperado, segundo os meteorologistas.

No entanto, fenômenos assim e seus impactos devastadores, aconteceram em 2011, na Região Serrana, deixando mais de 900 mortos em Petrópolis, Nova Friburgo e Teresópolis, assim como também ocorreu recentemente no Sul da Bahia, em Minas Gerais e São Paulo, deixando centenas de vítimas.

Segundo relato de meteorologistas ao site de notícias da BBC, estamos sofrendo muito com o aquecimento global, mas que o fenômeno da zona de convergência não é nenhuma novidade provocada por essa mudança climática, no entanto, tem sido cada vez mais intenso e frequentes. Relatórios científicos sinalizam que a frequência das ondas de calor é de três a quatro vezes maior do que há 150 anos. Mas afinal, qual a relação disso com racismo ambiental? 

Racismo Ambiental

Dr. Benjamin Franklin Chavis Jr.
Bem, primeiramente, é preciso explicar que racismo ambiental é um termo cunhado em 1981 pelo líder afro-americano de direitos civis, Dr. Benjamin Franklin Chavis Jr, em um contexto de manifestações do movimento negro contra injustiças ambientais nos EUA. “Um produto da colonização tradicional, que exerceu controle sobre territórios já ocupados, com uso de poder militar e político, subtraindo direitos e bens como uma terra adequada e segura para se construir moradia e viver, disse ele. ” (Legnaioli, Stella. O que é racismo ambiental e como surgiu o conceito. Ecycle. Disponível em: https://www.ecycle.com.br/racismo-ambiental/) .  
Essa é a realidade do nosso país, onde impera o racismo estrutural, um profundo resquício do tempo do Brasil colônia, do período escravocrata, em que desde então terras seguras e organizadas ficaram nas mãos de um pequeno grupo de pessoas, os “Donos das terras”, elite do atraso, que se utilizaram/utilizam ao longo do tempo, do uso da força política, econômica e de armas de fogo, obrigando nosso povo pobre e negro a se abrigar nas margens dos territórios e nas encostas e altos dos morros, nas periferias.
Essa lógica perversa de segregação das pessoas precisar acabar, carecemos demais da retomada de investimento em políticas de moradia, ações afirmativas, compensatórias e adequadas a superação de tais mazelas deixadas, como as que foram desenvolvidas durante os governos Lula e Dilma.
Situação atual

No Brasil há diferentes estudos que sinalizam o perigo de imóveis em encostas e margens de rios, sob o risco de sofrerem com os impactos das chuvas, caso não haja ações preventivas efetivas, e que são cerca de cinco milhões de pessoas vivendo em tais áreas de risco.

Bem, ouso afirmar que é sabido por nossos governantes que tais áreas são ocupadas por pessoas pobres e em sua maioria negras. Vidas negligenciadas e o que era temido segue acontecendo. Somado a isso, temos um atual governo que é frio, insensível, que se mostra ineficiente, que corta incentivos à produção de pesquisa e ciência, bem como em políticas sociais e de habitação.

A verdade é que para reduzir a degradação ambiental, como as queimadas criminosas que estão acontecendo sistematicamente em nossas florestas, sobretudo, com destaque para a floresta Amazônica, e frear o avanço do aquecimento global, políticas ambientais adequadas são fundamentais, mas precisam estar atreladas a ações estratégicas de estado e que se proponham a salvar vidas, onde o melhor a ser feito é remover moradias em áreas comprovadamente de risco.

Política Pública

Para isso, se faz urgente uma postura diferente de nossos governantes, uma grande ação integrada das diferentes esferas de poder (municipal, estadual e federal), envolvendo a participação da sociedade civil, com o propósito de articular e viabilizar todas as condições econômicas e técnicas necessárias para dar um fim a essa onda de dor e revolta, pelas vidas perdidas, por todo dano material e imaterial.

Movidos por esse sentimento de consternação e solidariedade, que possamos estar mais atentas e atentos a importância de atitudes coletivas e de cooperação. É urgente entendermos que tudo está conectado, interligado, que a falta de empatia e de uma visão do todo, ou seja, deixar de olhar para o bem comum, irá gerar danos a toda população.

Em ano de eleições, se faz necessário participação ativa, analisar bem as candidaturas e seus projetos políticos, elegermos representantes comprometidos com a implementação de obras de contenção e canalização, projetos de educação, saneamento, moradia, urbanização e de combate às desigualdades sociais e ao racismo ambiental.

Se ainda existe moradias em encostas e margens de rios é porque não existe uma política pública contínua e séria de moradia e de promoção da Igualdade Racial.

Isso precisa estar no centro do debate político dos que pretendem assumir cargos do poder executivo e legislativo, nas próximas eleições.

*Letícia Florêncio é Educadora popular, Bióloga, Pedagoga, e da Executiva Estadual PTRJ.

(Foto destaque: Eduardo Anizelli/ Folhapress)

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