Desgoverno massacra famílias chefiadas por mulheres negras e pardas

A começar pela fome – no Brasil de Jair Bolsonaro, a segurança alimentar está presente em apenas 35% dos lares de pessoas da cor preta ou parda.

Os dados do 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil (II Vigisan), divulgados em junho, mostram aumento de 8% da fome em lares de famílias pretas e pardas desde o 1º Inquérito da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede PENSSAN), de 2020.

Essa também foi a porcentagem de alta da fome nas casas chefiadas por mulheres, onde os números passaram de 11,2% para 19,3%. Agora, a cada dez lares chefiados por mulheres ou pessoas negras de qualquer gênero, seis têm algum tipo de restrição de acesso a alimentos. Entre famílias chefiadas por homens, independentemente de raça, o índice é de 53,6%. Entre lares chefiados por pessoas brancas, é de 46,8%.

“Quem é rico continua mais rico e quem é pobre sofre cada vez mais. Cada vez mais os trabalhos ficam precarizados”, descreve Kelly Quirino, professora e pesquisadora de relações raciais da Universidade de Brasília (UnB), no portal g1. “O racismo que estrutura essa ordem das coisas as prejudica, mas tem que levar em consideração também o sexismo e o classismo. É um ciclo de violência que se repete.”

Outro estudo, da Rede de Pesquisa Solidária em Políticas Públicas e Sociedade, aponta que mulheres negras com ocupações na base do mercado de trabalho foram o segmento social mais afetado pela recessão gerada pela inação do desgoverno Bolsonaro no auge da pandemia, que afetou setores não essenciais e sem vínculos formais de trabalho, onde elas são maioria. Também foi o que mais morreu de Covid-19 em 2020.

“Muitos postos de emprego acabaram”, aponta a professora da UnB. “A gente já estava em um contexto de desemprego altíssimo, e com a pandemia essa questão piorou muito e fez com que as pessoas negras se contaminassem mais porque tiveram que sair de casa para os trabalhos informais como camelô e de doméstica.”

As taxas de desocupação e de subutilização das mulheres negras também são maiores do que as verificadas entre não negras. Análise de dados da Pnad Contínua do segundo trimestre de 2021 feita pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra ainda que mulheres negras receberam 46,6% da remuneração de homens não negros no período. Sem políticas públicas que as acolham, após a terra arrasada bolsonarista, a insegurança alimentar bate na porta todos os dias.

“Diante da crise, as vulnerabilidades desse grupo se ampliam. Se tivessem melhores condições de trabalho, acesso a serviços públicos, mesmo frente a uma crise sanitária e política elas teriam mais equilíbrio”, ressalvou a coordenadora geral da ONG Criola, Lúcia Xavier, ao portal Universa. “Com a inflação alta, sem trabalho ou com empregos precários, e sem suporte público, elas não conseguem mais”, conclui,

Vulnerabilidade é marca histórica no país

Tereza Campello, que foi ministra de Desenvolvimento Social e Combate à Fome do Governo Dilma entre 2011 e 2016, período em que o Brasil saiu do Mapa da Fome das Nações Unidas, lembra que a maior vulnerabilidade das mulheres negras é histórica no país. “Piorou muito, mas já era uma característica da situação da fome no Brasil em outros momentos da história”, lembra a economista ao portal g1.

Titular da cátedra Josué de Castro da Universidade de São Paulo (USP), Tereza aponta a regra do teto de gastos como marco inicial do desmonte de políticas públicas ocorrido após o golpe contra Dilma Rousseff, em 2016, “justamente no período em que a pobreza aumentou, que a vulnerabilidade aumentou”. “Em 2018, dois anos antes de a pandemia chegar, o Brasil já tinha invertido os principais indicadores de segurança alimentar.”

Por escolha política do usurpador Michel Temer, depois agravada sob Jair Bolsonaro, a fome, antes localizada em algumas regiões, se espraiou para todo o país, aponta a ex-ministra. A pequena diferença no número de pessoas que vivem em situação de insegurança alimentar grave no Nordeste (12,1 milhões) e no Sudeste (11,7 milhões) é exemplo dessa nacionalização da fome.

“Se você olhasse esse dado na década de 1980, 1990, essa situação não teria essa mesma peculiaridade”, afirma Tereza, ressaltando que proporcionalmente a fome segue mais grave no Norte e no Nordeste.

Diretora do Quilombo Casa Akotirene, localizada na Ceilândia Norte, no Distrito Federal, Joice Marques alterou o foco cultural da entidade, inaugurada em 2018, para atender as necessidades emergenciais da comunidade, majoritariamente negra. “São realidades bem duras. São mães de quatro, cinco crianças, algumas delas são crianças especiais, mas falta creche, atenção à saúde, educação, emprego e renda”, afirma no g1.

“A gente tem buscado potencializar a oferta de cursos, atividades de formação e capacitação para romper essa estrutura”, continua Joice. Segundo ela, as mulheres negras “hoje se encontram nesse lugar muito à deriva, nessa corda bamba”.

Para Tereza Campello, é preciso agir imediatamente na reconstrução de uma rede de políticas integradas de proteção social, que incluam oferta de alimentos saudáveis, geração de renda e emprego e retomada de medidas de inclusão abandonadas desde o golpe. “Isso não é gasto. As pessoas tratam como gasto de saúde, educação, assistência social, alimentação escolar – isso é um investimento”, argumenta.

Ao lançar as diretrizes do programa de governo da futura chapa com Geraldo Alckmin, em 21 de junho, Luiz Inácio Lula da Silva ressaltou a importância da reconstrução do país para o resgate da soberania nacional. Acabar com a fome outra vez é um dos pilares.

“Este país precisa voltar a ser soberano. E um país não será soberano apenas porque cuida da fronteira, do espaço aéreo”, afirmou Lula. “Um país será soberano quando seu povo for respeitado, tiver emprego, tiver educação, tiver salário, comer, tiver saúde.”

Acesse o plano aqui.

Da Redação PT, com informações de g1 e UOL.

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