A política infelizmente vive de traição em traição, mas não perdoa nem esquece os traidores

Por Samuel Braun:

Há apenas seis meses o PT tinha candidatura própria ao governo e Freixo havia acabado de abandonar o PSOL. Pelo alinhamento nacional, o candidato do PT teria PV e PCdoB, e Freixo, cristão novo no PSB, só tinha sua nova legenda – e quiçá o PSOL e sua síndrome de Estocolmo.

Freixo havia entrado no PSB pela Nacional, passando por cima do presidente estadual e pré-candidato ao Senado Alessandro Molon. Chamou então o presidente nacional do PSB e a presidente nacional do PT e propôs um acordo.

Por esse acordo, o PT retirava sua candidatura ao governo e o PSB retirava sua candidatura ao Senado, e os partidos invertiam: PSB ao governo, PT ao Senado. O PT Nacional conversou com o PT do Rio e assintiu. O PSB nacional, sem falar com o PSB do Rio (hoje sabemos) também assintiu.

O PT retirou seu candidato ao governo e o lançou ao Senado, como acordado. O PSB lançou seu candidato ao governo, recebeu o apoio de PT-PV-PCdoB mas não retirou seu candidato ao Senado. Há meses segue essa traição do acordo pelo PSB.

Ao invés de cumprir o acordo que ele mesmo propôs, o PSB passou a atacar o candidato do PT com a retórica lavajatista, misturando preconceito de origem, elitismo e udenismo lacerdista. O mesmo que já fizeram com Lula recentemente, em Brasília, e no Rio, perfilando com Bretas.

Depois dessa trajetória, o PT ainda discute o peso da resposta ao PSB. É certo que Freixo vendeu um acordo falso. Certo que o PT abriu mão do que pôde pra fazer unidade. Mas certo também que o PT tem uma candidatura muito mais viável ao Senado da qual não teria obrigação de desistir mesmo que o PSB não tivesse sido desleal.

Molon não tem culpa nenhuma nessa crise. Por ele o PT apresentava o candidato ao governo e ele era o candidato ao Senado na grande coalizão com PSB, PT, PV, PCdoB, PSOL e muitos mais. Pelo PT também seria perfeito, já que Ceciliano era inicialmente o nome ao governo.

Eu sei que mais da metade dos que me lêem nutrem apreço pelo candidato do PSB, ou acreditam que ele é indispensável e por isso aturam aquilo que discordam dele. Sei disso. Mas quero que reflitam a bagunça causada por quem em 2020 abandonou às vésperas das eleições por capricho pessoal, que largou a militância do PSOL que fez dele quem é pra abraçar a direita, que entrou num partido atropelando Molon e fez um acordo baseado em meias verdades.

Reflitam pois não existe santo nessa (e noutras) história. É disputa entre partidos com PROJETOS POLÍTICOS DISTINTOS, que podem ou não convergir pontualmente.

Quando Lula estava preso, sua soltura não era prioridade na opinião do candidato ao governo do PSB. No Rio, quem não abandonou o PT no momento dramático lutou pelas universidades, pelo serviço público e pela sobrevivência do Estado sob ataque de Paulo Guedes, enquanto, no PSB, votavam com os próceres da Lava-Jato pra aparecer bem na Globonews.

A política infelizmente vive de traição em traição, mas não perdoa nem esquece os traidores. Acordos existem para serem cumpridos, e isso diferencia quem é ou não digno de composição em alianças pontuais de projetos diferentes. Na impossibilidade de aliança, eu apoio o projeto que não tergiversou sobre o golpe e que prioriza a Baixada, interior e subúrbio à orla turística.

Espero com isso só voltar ao tema após sacramentado pelas nacionais.

Samuel Braun é Bacharel em Ciências Sociais, Mestre em Ciência Política e doutorando em Economia Política Internacional, Coordenador de Integração da UERJ, Foi presidente estadual e executiva nacional da REDE, diretor do sindicatos dos bancários e formador nacional da CUT.

(fotos: Crédito: Luis Macedo/Câmara dos Deputados/Julia Passos/ALERJ)

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